Testosterona: quando a reposição é indicada — e quando não é
A reposição de testosterona é tratamento para deficiência comprovada, não recurso estético ou de desempenho. Entenda o diagnóstico, as regras do CFM e os cuidados envolvidos.
Em resumo
- A deficiência de testosterona (hipogonadismo) é diagnosticada pela combinação de sintomas compatíveis com níveis baixos confirmados em mais de uma dosagem, colhida pela manhã.
- Pela Resolução CFM nº 2.333/2023, a reposição hormonal está indicada apenas em caso de deficiência específica comprovada.
- A mesma resolução veda a prescrição de testosterona e anabolizantes com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora do desempenho esportivo.
- Quando indicada, a reposição exige acompanhamento regular, porque pode afetar a fertilidade, o sangue e outros aspectos da saúde.
A testosterona virou assunto de redes sociais, academias e promessas de “rejuvenescimento”. Nesse cenário, é fácil perder de vista o que a medicina realmente sabe: a reposição de testosterona é um tratamento para uma condição específica, com indicações, riscos e necessidade de acompanhamento. Fora desse contexto, não há benefício comprovado que justifique a exposição aos riscos — e a prescrição é vedada pelas normas éticas da medicina no Brasil.
Para que serve a testosterona
A testosterona é o principal hormônio sexual masculino, produzido sobretudo nos testículos sob comando da hipófise, uma glândula localizada no cérebro. Ela participa do desejo sexual, da produção de espermatozoides, da manutenção da massa muscular e óssea, da produção de células do sangue e de aspectos do humor e da energia.
Os níveis podem diminuir gradualmente com a idade em parte dos homens, mas isso não significa que todo homem mais velho tenha deficiência ou precise de reposição.
O que é deficiência de testosterona
A deficiência de testosterona, ou hipogonadismo, é o quadro em que o organismo não produz o hormônio em quantidade suficiente e isso causa sintomas. Os dois elementos precisam estar presentes.
Sinais e sintomas que podem estar associados:
- diminuição do desejo sexual;
- dificuldade de ereção;
- redução das ereções espontâneas, inclusive as matinais;
- cansaço persistente e baixa disposição;
- perda de massa muscular e aumento de gordura corporal;
- redução de pelos, alterações de humor, dificuldade de concentração;
- anemia leve e perda de massa óssea.
Muitos desses sintomas são inespecíficos e podem ter outras causas, como depressão, distúrbios do sono, doenças da tireoide, diabetes, excesso de peso ou efeitos de medicamentos. Por isso, a avaliação vai além de um exame de sangue.
Como é feito o diagnóstico
As diretrizes da Associação Americana de Urologia (AUA) orientam que o diagnóstico se baseie em:
- Sintomas e sinais compatíveis, avaliados na consulta;
- Testosterona total baixa em pelo menos duas dosagens, feitas em dias diferentes, pela manhã, quando os níveis costumam ser mais altos. A AUA adota como referência valores abaixo de 300 ng/dL, sempre interpretados junto com o quadro clínico.
Diante da confirmação, é importante investigar a causa, com exames como LH, FSH, prolactina e, conforme o caso, outros. Isso ajuda a diferenciar problemas nos testículos de alterações na hipófise, que podem exigir investigação específica.
Um único exame de testosterona “baixo”, colhido em qualquer horário, sem sintomas correspondentes, não é suficiente para indicar tratamento.
O que diz o Conselho Federal de Medicina
A Resolução CFM nº 2.333/2023 estabelece que as terapias de reposição hormonal estão indicadas em caso de deficiência específica comprovada, com nexo causal entre a deficiência e o quadro clínico, ou em deficiências diagnosticadas cuja reposição tenha benefício cientificamente comprovado.
A mesma resolução veda, entre outros pontos:
- o uso de testosterona em qualquer formulação sem a devida comprovação diagnóstica de deficiência;
- o uso de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética;
- o uso com finalidade de ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo, em atletas amadores ou profissionais;
- a realização de cursos, eventos e publicidade que estimulem essas práticas.
O CFM também lembra que o uso de terapias hormonais com a finalidade de retardar, modular ou prevenir o envelhecimento já era vedado por resolução anterior. Em outras palavras: testosterona é tratamento de doença, não ferramenta de estética, performance ou “anti-idade”.
Riscos e efeitos que exigem acompanhamento
Quando a reposição é indicada, ela precisa ser acompanhada de perto, porque pode provocar efeitos importantes:
- Redução da fertilidade: a testosterona vinda de fora sinaliza ao cérebro que não é preciso estimular os testículos, o que pode reduzir muito a produção de espermatozoides. Homens que desejam ter filhos precisam discutir isso antes de qualquer tratamento, pois há outras abordagens nesse cenário.
- Aumento dos glóbulos vermelhos (policitemia), que torna o sangue mais espesso.
- Alterações na próstata e no PSA, que devem ser monitorados.
- Acne, retenção de líquidos, aumento das mamas e piora da apneia do sono em algumas pessoas.
- Redução do tamanho dos testículos.
Esses riscos são ainda maiores com doses acima das fisiológicas e com produtos de procedência duvidosa, comuns no uso sem prescrição.
Mudanças de hábitos também influenciam
Em homens com níveis limítrofes, fatores como excesso de peso, sedentarismo, sono insuficiente, consumo excessivo de álcool e doenças crônicas mal controladas podem contribuir para a testosterona baixa. As diretrizes reconhecem que perda de peso e atividade física podem melhorar os níveis em parte desses casos, e esses cuidados fazem parte da avaliação.
E quem já usa sem indicação?
Se você usa ou usou testosterona ou anabolizantes sem acompanhamento, não interrompa por conta própria de forma abrupta sem conversar com um médico, e não tenha receio de relatar o uso na consulta. A informação é tratada com sigilo e é essencial para avaliar a saúde hormonal, cardiovascular, hepática e reprodutiva com segurança.
Em resumo
A reposição de testosterona tem lugar na medicina quando existe deficiência comprovada, com sintomas e exames confirmados, e deve ser acompanhada regularmente. Fora dessas situações, ela não é indicada e é vedada pelas normas do CFM. Se você tem sintomas ou dúvidas sobre seus exames, a avaliação urológica ajuda a entender o que está acontecendo e quais caminhos são adequados.
Quando procurar o urologista
- Você tem queda persistente do desejo sexual, dificuldade de ereção, cansaço ou perda de massa muscular sem explicação.
- Um exame mostrou testosterona baixa e você quer entender se isso realmente significa deficiência.
- Você usa ou usou testosterona ou anabolizantes sem acompanhamento e quer avaliar a saúde com segurança.
- Você está tentando ter filhos e recebeu indicação de testosterona.
Referências
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023
- Conselho Federal de Medicina. Nova resolução CFM veta terapias hormonais para fins estéticos e de desempenho esportivo
- American Urological Association (AUA). Testosterone Deficiency Guideline
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Sexual and Reproductive Health
Conteúdo informativo, não substitui consulta. Este artigo tem finalidade educativa e não deve ser usado para autodiagnóstico ou automedicação. Cada caso exige avaliação individual por um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.